Reverendo Ricardo Mário Gonçalves
Da Velhice
 

804. Ah! Quão breve é a vida humana! Morremos antes de atingir os cem anos de idade. E mesmo que vivêssemos mais, sempre morreríamos de velhice.

805. As pessoas se afligem por causa das coisas a que se apegam como se fossem suas. Isso porque suas posses não são permanentes. Todas as coisas deste mundo estão sujeitas à extinção. Verificando isso, não devem as pessoas permanecer na condição mundana.

806. As pessoas pensam das coisas: - Isto é meu. Entretanto, com a morte elas perdem essas coisas. Os que me seguem devem discernir sabiamente este princípio e não mais se voltarem para o conceito de "isto é meu".

807. Da mesma forma que a pessoa desperta não mais vê aqueles com que se encontrou em sonhos, não mais podemos rever as pessoas amadas, quando a morte as faz deixarem este mundo.

808. Quando vistas ou ouvidas, as pessoas eram chamadas por seus nomes. Depois de mortas, restam somente seus nomes a serem transmitidos.

809. Aquele que ambiciona as coisas e a elas se apega como sendo suas, não consegue se livrar da preocupação, da tristeza e da mesquinhez. É por isso que os santos que conheceram a tranqüilidade se desfizeram das posses, ao partirem.


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810. O monge que, renunciando e recuando, se dedica a suas práticas, familiariza-se com os assentos em lugares retirados e distantes e deles se aproxima. Ele não se aproxima dos domínios das existências prisioneiras da ilusão, tal comportamento é adequado a sua condição.

811. O santo não se deixa afetar pelas coisas, ele nem as ama, nem as odeia. Ele não é maculado nem pela tristeza, nem pela mesquinhez. Ele é como a flor de lótus, que não se deixa contaminar pelo lodo.

812. Assim como as gotas de orvalho sobre a flor de lótus não se deixam contaminar pelo lodo, o santo não se deixa macular pelas coisas que viu, aprendeu ou pensou.

813. Aquele que varreu e extirpou o mal não pensa com apego nas coisas que viu, aprendeu ou pensou. Ele não intenta se purificar apoiando-se em coisas externas. Ele nem deseja e nem se distancia do desejo.

Suttanipata 804-813.
Tradução do Reverendo Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves

Jara Vagga - O Capítulo da Velhice

146. Por que o riso? Por que a alegria? Porventura não está tudo sempre a arder? Estais envoltos em trevas, por que não buscais a luz?

147. Observai esta forma ornamentada: é um corpo cheio de chagas, um composto de agregados, tomado por doenças, sem continuidade, presa de muitos pensamentos ilusórios.

148. Este corpo está gasto pelo uso, é um ninho de doenças, fácil de perecer; o corpo humano é uma massa pútrida a se desagregar, isso porque a vida encontra seu fim na morte.

149. Que prazer podeis ter em contemplar essas ossadas esbranquiçadas, semelhantes a cabaças abandonadas no outono?

150. Esta praça forte é constituída de ossos revestidos de carne e sangue. Nela estão instaladas a velhice e a morte, a soberba e a hipocrisia.

151. As carruagens dos reis, ornamentadas por variadas cores, terminam por ficar desgastadas. Da mesma forma, vai o corpo envelhecendo. Entretanto, o ensinamento do Dharma, que é a raiz das virtudes, jamais envelhece. Dessa forma, os bons vão instruindo os bons.

152. Aquele que é parco no ouvir vai envelhecendo como um boi: suas carnes se avolumam, mas seu saber não cresce.

153. Busquei o construtor da casa, sem lograr encontrá-lo. Por quantas existências transmigrei, quantas vidas dolorosas experimentei!

154. Construtor da casa! Finalmente encontrei-te! Não mais voltarás a construir casas! Quebradas foram tuas vigas, despedaçada foi tua cumeeira. Meu coração ruma para a serenidade, atingi a extinção de todos os anseios.

155. Aqueles que não praticaram ações puras e não adquiriram riquezas na juventude perecem como garças velhas numa lagoa sem peixes.

156. Aqueles que não praticaram ações puras e não adquiriram riquezas na juventude jazem como arcos quebrados, a lamentar as coisas passadas.

Dhammapada XI, 146-156.
Traduzido pelo Reverendo Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves
da versão japonesa do Professor Yushô Miyasaka.

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